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O violão da mãe, a força do Rio: Marcos Luz transforma vida em música

À frente do El Miraculoso Samba Jazz, músico une estudo, afeto e improvisação em uma trajetória marcada por escolhas corajosas, tempestades, grandes palcos e amor pela arte

14/08/2026 às 21h14 Atualizada em 01/09/2026 às 21h36
Por: Redação Fonte: Portal Rio de Janeiro
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Antes dos palcos, dos ensaios, das apresentações e dos aplausos, houve um violão.

E houve uma mãe.

Ainda criança, em Brasília, Marcos Luz aprendeu os primeiros acordes com a mãe, uma advogada que tocava violão muito bem, embora nunca tivesse feito da música sua profissão. O que talvez para ela fosse apenas um gesto de carinho e partilha acabou se transformando no início de uma trajetória que atravessaria toda a vida do filho.

Ao ensinar aqueles primeiros acordes, ela não entregou apenas uma técnica. Entregou uma possibilidade.

Anos depois, aqueles sons se transformariam em estudo, profissão, palco, estrada e missão. O violão deixaria de ser apenas um instrumento para se tornar memória, herança e caminho.

Hoje, Marcos é professor de música concursado do município do Rio de Janeiro e músico atuante na cena instrumental da cidade. À frente do El Miraculoso Samba Jazz, constrói uma ponte entre o rigor do estudo e a liberdade do improviso; entre o samba, o jazz, a salsa, o maracatu e o funk carioca.

Sua história é a de um músico que escolheu permanecer fiel àquilo que sentiu pela primeira vez ainda na infância: a força transformadora da música.

Quando a paixão virou escolha de vida

Já morando no Rio de Janeiro, Marcos buscou formação musical na Escola de Música Villa-Lobos, na Escola de Choro Portátil, na Praia Vermelha, e posteriormente na UniRio.

Em determinado momento, precisou tomar uma decisão definitiva. Abandonou o curso de Ciências Sociais na UFRJ para se dedicar integralmente à música.

Escolher a arte como profissão exige mais do que talento. Exige disciplina, coragem e disposição para enfrentar uma caminhada nem sempre previsível. Marcos escolheu esse caminho sabendo que viver de música significaria estudar continuamente, carregar equipamentos, enfrentar deslocamentos, lidar com incertezas e continuar acreditando mesmo quando os palcos não estivessem garantidos.

A escolha, no entanto, não o afastou da educação. Pelo contrário. Hoje, como professor, ele transforma a experiência acumulada em conhecimento compartilhado.

A música que um dia recebeu da mãe agora também segue adiante por meio dos alunos que ensina.

Uma banda que nasceu em Botafogo

A história do El Miraculoso Samba Jazz começou em 2012, no Clube da Esquina, em Botafogo. O bar, que fazia referência ao histórico álbum de Milton Nascimento, recebia música brasileira e jazz.

Marcos levou ao espaço uma proposta simples: formar uma banda ao vivo para tocar às quintas-feiras.

No início, ninguém sabia exatamente até onde aquela ideia poderia chegar. Mas o público começou a aparecer. As noites ficaram cheias. Os ouvintes voltavam, novos encontros aconteciam e os convites para tocar em outros lugares surgiam.

A banda também ganhou visibilidade nos eventos mensais da Praia Vermelha, que passaram a reunir um público cada vez maior.

“Os eventos começaram a ficar cheios e começamos a ter convites para tocar em outros lugares. Assim começou.”

A frase de Marcos resume a origem do grupo, mas também revela algo importante sobre a cena independente: muitas histórias não começam com grandes estruturas. Começam com uma oportunidade, uma proposta sincera e a persistência de quem continua tocando.

Um som feito de encontros

O El Miraculoso Samba Jazz não se prende a uma única definição. A banda passeia pelo samba, jazz, salsa, maracatu e funk carioca, criando uma linguagem própria a partir do encontro entre diferentes ritmos.

A improvisação é o elemento que conecta esse universo.

No jazz, ela permite que os músicos escutem uns aos outros e criem em tempo real. No trabalho da banda, também funciona como uma forma de liberdade: cada apresentação pode ganhar novos contornos, novas respostas e novas possibilidades.

“A improvisação e a inventividade característica do jazz dão o tempero e a liga para todo esse caldeirão.”

Essa mistura tem muito a dizer sobre o Rio de Janeiro. Uma cidade que também não cabe em uma única definição, onde diferentes culturas se encontram, convivem e se transformam.

O som da banda carrega o balanço do samba, a liberdade do jazz e a energia das ruas. É uma música que respeita a tradição, mas não permanece parada nela.

Entre Jobim, Miles Davis e Deep Purple

 

As influências do grupo atravessam diferentes épocas e estilos. Fazem parte desse universo nomes como Moacir Santos, Miles Davis, Tom Jobim, Gilberto Gil, Astor Piazzolla, Nelson Cavaquinho e João Donato.

Também há espaço para o rock clássico de Led Zeppelin e Deep Purple.

A diversidade dessas referências revela a maneira como Marcos e seus companheiros escutam o mundo: sem criar fronteiras rígidas entre os gêneros.

“Todas essas influências são catalisadas e transformadas em música brasileira e nas nossas performances.”

A banda não busca simplesmente repetir aquilo que admira. Absorve essas influências e as transforma em uma sonoridade própria, brasileira e contemporânea.

A música se completa no ensaio

As composições autorais do El Miraculoso Samba Jazz são assinadas por Marcos Luz e Jefferson Moreira.

As músicas geralmente chegam aos ensaios com melodias e ideias previamente concebidas. Mas é na convivência entre os integrantes que elas encontram sua forma definitiva.

A repetição revela caminhos. A escuta muda arranjos. Cada músico acrescenta sua personalidade. Aos poucos, a composição deixa de ser apenas uma ideia inicial e passa a carregar o timbre da banda.

É nesse processo que se constrói a identidade do grupo.

Mesmo quando muda de gênero, o El Miraculoso Samba Jazz mantém uma maneira própria de tocar. Uma assinatura que não está somente na partitura, mas no modo como os músicos se relacionam com ela.

A identidade construída com o tempo

Nenhuma banda nasce pronta. A identidade do El Miraculoso Samba Jazz foi se formando ao longo dos anos, nas apresentações, nos ensaios, na divulgação e na relação com o público.

A forma de se vestir, de ocupar o palco e de apresentar o trabalho foi amadurecendo com a experiência.

“Fomos amadurecendo ao longo dos anos e hoje podemos dizer que muitas pessoas da cidade já viram o nosso trabalho.”

Na música independente, essa presença constante representa uma conquista. Ser lembrado pelo público é resultado de uma construção paciente, feita apresentação após apresentação.

O grupo não precisou de um único momento para se afirmar. Foi ocupando espaços e criando vínculos.

A tempestade que quase levou tudo

Entre as histórias de bastidores, Marcos guarda a lembrança de uma apresentação na Praia Vermelha em que a banda enfrentou uma chuva intensa.

Músicos e equipamentos ficaram completamente molhados. Foi um momento difícil, tenso e desesperador, mas que acabou se transformando em uma memória curiosa e até engraçada.

A cena também poderia ser vista como uma síntese da vida de um músico independente: é preciso estar preparado para improvisar quando o roteiro muda.

No palco, a improvisação nasce da música. Fora dele, nasce da necessidade de continuar.

O silêncio da pandemia

O período mais difícil para a banda foi a pandemia.

Shows, ensaios e encontros foram interrompidos. A música, que depende da presença e da troca, precisou conviver com a ausência do público.

“Tudo parou. Foi um período bem esquisito.”

A frase é breve, mas carrega o peso de um tempo em que os palcos ficaram vazios e os músicos precisaram lidar com a paralisação de seu trabalho.

Para Marcos, assim como para tantos artistas, não foi apenas uma interrupção profissional. Foi uma quebra na rotina, nos planos e na própria forma de se relacionar com o mundo.

Ainda assim, a música permaneceu.

Porque aquilo que nasce de uma relação tão profunda não desaparece quando os palcos se fecham.

O palco olímpico que mudou a expectativa

Entre as apresentações mais marcantes da carreira está um show realizado durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro.

A banda imaginava que faria uma pequena apresentação no chão, para recepcionar o público. Mas, durante o trajeto até o local, percebeu que encontraria uma estrutura muito maior: um palco enorme, com telão e um sistema de som de grandes proporções.

Os músicos foram levados de carrinho até o espaço da apresentação e testemunharam a dimensão do palco crescendo diante deles.

“Quando fomos em direção àquele palco gigantesco, dissemos: ‘Uau, hoje o negócio vai ser diferente!’”

A energia do público tornou a noite inesquecível.

Foi um daqueles momentos em que o artista entende que seu trabalho pode alcançar dimensões que nem sempre consegue imaginar. A banda saiu de uma expectativa modesta para uma experiência grandiosa, carregando consigo a surpresa e a emoção de quem percebe que chegou mais longe do que esperava.

Dida Bar: uma casa que virou parte da trajetória

Durante oito anos, a Dida Bar, quando ainda funcionava na Praça da Bandeira, foi uma casa importante para o El Miraculoso Samba Jazz.

As apresentações semanais ajudaram no crescimento artístico do grupo, ampliaram sua visibilidade e fortaleceram a relação com o público. Mais do que um local de trabalho, a casa se tornou parte da memória da banda.

Agora, o El Miraculoso Samba Jazz retorna à Dida, atualmente localizada na Lapa, com apresentações aos sábados, junto ao movimento da Feira da Lavradio.

Voltar é também reencontrar uma parte da própria história. É reconhecer o lugar onde muitas coisas começaram a amadurecer e continuar a caminhada a partir dele.

O Rio de Janeiro ainda escuta

Marcos vê o Rio como uma cidade com muitas oportunidades para os artistas. O jazz e a música instrumental vêm ocupando cada vez mais espaço na programação de casas e eventos.

Ao longo dos anos, ele acompanhou o surgimento de novas bandas e o fortalecimento de uma cena que se reinventa continuamente.

O El Miraculoso Samba Jazz participa desse movimento ao mostrar que a música instrumental pode estar próxima das pessoas: em um bar, em uma feira, em uma praça ou em qualquer espaço onde exista alguém disposto a ouvir.

A música como alimento

Para os jovens que desejam seguir carreira na música, Marcos deixa um conselho direto: estudar.

Estudar com metrônomo, conhecer diferentes influências, pesquisar biografias e compreender a história e o contexto social, político e econômico dos artistas admirados.

Mas ele também fala sobre a importância de consumir cultura.

Ir a exposições. Assistir ao teatro. Ler. Ouvir outras músicas. Observar as pessoas e o mundo.

Tudo aquilo que alimenta a sensibilidade de um artista pode retornar em sua obra. Uma experiência pode virar melodia. Uma lembrança pode virar ritmo. Uma conversa pode alterar a forma de interpretar uma música.

O músico não se forma apenas pelo instrumento. Forma-se também pela vida.

“Que Beleza” depois da luta

Se a trajetória do El Miraculoso Samba Jazz fosse transformada em uma canção, Marcos escolheria “Que Beleza”, de Tim Maia, que faz parte do repertório da banda.

A escolha é significativa porque não ignora as dificuldades. Pelo contrário: reconhece a luta, mas decide não ser definido por ela.

“Foram momentos difíceis, muita luta, carregando equipamento, saindo correndo de um lugar para o outro. Mas fazemos tudo com muita alegria e muito amor. Que beleza!”

Essa frase revela a essência de sua caminhada.

Marcos sabe que houve cansaço, incerteza e momentos difíceis. Mas também sabe que continuar tocando é uma forma de celebrar a vida.

Um legado feito de som e memória

Marcos acredita que, no futuro, o nome do El Miraculoso Samba Jazz estará presente em pesquisas e dissertações sobre a música instrumental produzida no Rio de Janeiro.

Esse desejo representa mais do que a busca por reconhecimento. Representa a vontade de deixar uma marca na paisagem cultural da cidade.

E essa marca já está sendo construída.

Está nas composições autorais, nos alunos, nos palcos, na Dida Bar, na Praia Vermelha, nos ouvintes que voltam e nas pessoas que ainda vão descobrir a banda.

Está também naquele primeiro violão.

O instrumento que a mãe colocou nas mãos de Marcos ainda ecoa, de alguma forma, em tudo o que ele faz. Está na delicadeza do ensino, na disciplina do estudo, na coragem de escolher a música e na liberdade que aparece a cada improviso.

Marcos Luz não apenas toca no Rio de Janeiro.

Ele escuta o Rio, absorve seus ritmos e devolve à cidade uma música feita de encontros, memória e resistência.

Quem ouvir o El Miraculoso Samba Jazz talvez reconheça algo familiar: o movimento de uma rua, a energia de uma noite, a surpresa de uma chuva, o calor de uma casa cheia ou a emoção de uma história que ainda está sendo escrita.

Porque há músicos que simplesmente executam canções.

E há músicos que carregam dentro delas tudo o que viveram.

Marcos Luz é um desses músicos.

Contato Instagram: @marcosluzmarcosluz

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