
Antes dos palcos, dos ensaios, das apresentações e dos aplausos, houve um violão.
E houve uma mãe.
Ainda criança, em Brasília, Marcos Luz aprendeu os primeiros acordes com a mãe, uma advogada que tocava violão muito bem, embora nunca tivesse feito da música sua profissão. O que talvez para ela fosse apenas um gesto de carinho e partilha acabou se transformando no início de uma trajetória que atravessaria toda a vida do filho.

Ao ensinar aqueles primeiros acordes, ela não entregou apenas uma técnica. Entregou uma possibilidade.
Anos depois, aqueles sons se transformariam em estudo, profissão, palco, estrada e missão. O violão deixaria de ser apenas um instrumento para se tornar memória, herança e caminho.
Hoje, Marcos é professor de música concursado do município do Rio de Janeiro e músico atuante na cena instrumental da cidade. À frente do El Miraculoso Samba Jazz, constrói uma ponte entre o rigor do estudo e a liberdade do improviso; entre o samba, o jazz, a salsa, o maracatu e o funk carioca.
Sua história é a de um músico que escolheu permanecer fiel àquilo que sentiu pela primeira vez ainda na infância: a força transformadora da música.
Já morando no Rio de Janeiro, Marcos buscou formação musical na Escola de Música Villa-Lobos, na Escola de Choro Portátil, na Praia Vermelha, e posteriormente na UniRio.
Em determinado momento, precisou tomar uma decisão definitiva. Abandonou o curso de Ciências Sociais na UFRJ para se dedicar integralmente à música.
Escolher a arte como profissão exige mais do que talento. Exige disciplina, coragem e disposição para enfrentar uma caminhada nem sempre previsível. Marcos escolheu esse caminho sabendo que viver de música significaria estudar continuamente, carregar equipamentos, enfrentar deslocamentos, lidar com incertezas e continuar acreditando mesmo quando os palcos não estivessem garantidos.
A escolha, no entanto, não o afastou da educação. Pelo contrário. Hoje, como professor, ele transforma a experiência acumulada em conhecimento compartilhado.
A música que um dia recebeu da mãe agora também segue adiante por meio dos alunos que ensina.
A história do El Miraculoso Samba Jazz começou em 2012, no Clube da Esquina, em Botafogo. O bar, que fazia referência ao histórico álbum de Milton Nascimento, recebia música brasileira e jazz.
Marcos levou ao espaço uma proposta simples: formar uma banda ao vivo para tocar às quintas-feiras.
No início, ninguém sabia exatamente até onde aquela ideia poderia chegar. Mas o público começou a aparecer. As noites ficaram cheias. Os ouvintes voltavam, novos encontros aconteciam e os convites para tocar em outros lugares surgiam.
A banda também ganhou visibilidade nos eventos mensais da Praia Vermelha, que passaram a reunir um público cada vez maior.
“Os eventos começaram a ficar cheios e começamos a ter convites para tocar em outros lugares. Assim começou.”
A frase de Marcos resume a origem do grupo, mas também revela algo importante sobre a cena independente: muitas histórias não começam com grandes estruturas. Começam com uma oportunidade, uma proposta sincera e a persistência de quem continua tocando.
O El Miraculoso Samba Jazz não se prende a uma única definição. A banda passeia pelo samba, jazz, salsa, maracatu e funk carioca, criando uma linguagem própria a partir do encontro entre diferentes ritmos.
A improvisação é o elemento que conecta esse universo.
No jazz, ela permite que os músicos escutem uns aos outros e criem em tempo real. No trabalho da banda, também funciona como uma forma de liberdade: cada apresentação pode ganhar novos contornos, novas respostas e novas possibilidades.
“A improvisação e a inventividade característica do jazz dão o tempero e a liga para todo esse caldeirão.”
Essa mistura tem muito a dizer sobre o Rio de Janeiro. Uma cidade que também não cabe em uma única definição, onde diferentes culturas se encontram, convivem e se transformam.
O som da banda carrega o balanço do samba, a liberdade do jazz e a energia das ruas. É uma música que respeita a tradição, mas não permanece parada nela.
As influências do grupo atravessam diferentes épocas e estilos. Fazem parte desse universo nomes como Moacir Santos, Miles Davis, Tom Jobim, Gilberto Gil, Astor Piazzolla, Nelson Cavaquinho e João Donato.
Também há espaço para o rock clássico de Led Zeppelin e Deep Purple.
A diversidade dessas referências revela a maneira como Marcos e seus companheiros escutam o mundo: sem criar fronteiras rígidas entre os gêneros.
“Todas essas influências são catalisadas e transformadas em música brasileira e nas nossas performances.”
A banda não busca simplesmente repetir aquilo que admira. Absorve essas influências e as transforma em uma sonoridade própria, brasileira e contemporânea.
As composições autorais do El Miraculoso Samba Jazz são assinadas por Marcos Luz e Jefferson Moreira.
As músicas geralmente chegam aos ensaios com melodias e ideias previamente concebidas. Mas é na convivência entre os integrantes que elas encontram sua forma definitiva.
A repetição revela caminhos. A escuta muda arranjos. Cada músico acrescenta sua personalidade. Aos poucos, a composição deixa de ser apenas uma ideia inicial e passa a carregar o timbre da banda.
É nesse processo que se constrói a identidade do grupo.
Mesmo quando muda de gênero, o El Miraculoso Samba Jazz mantém uma maneira própria de tocar. Uma assinatura que não está somente na partitura, mas no modo como os músicos se relacionam com ela.
Nenhuma banda nasce pronta. A identidade do El Miraculoso Samba Jazz foi se formando ao longo dos anos, nas apresentações, nos ensaios, na divulgação e na relação com o público.
A forma de se vestir, de ocupar o palco e de apresentar o trabalho foi amadurecendo com a experiência.
“Fomos amadurecendo ao longo dos anos e hoje podemos dizer que muitas pessoas da cidade já viram o nosso trabalho.”
Na música independente, essa presença constante representa uma conquista. Ser lembrado pelo público é resultado de uma construção paciente, feita apresentação após apresentação.
O grupo não precisou de um único momento para se afirmar. Foi ocupando espaços e criando vínculos.
Entre as histórias de bastidores, Marcos guarda a lembrança de uma apresentação na Praia Vermelha em que a banda enfrentou uma chuva intensa.
Músicos e equipamentos ficaram completamente molhados. Foi um momento difícil, tenso e desesperador, mas que acabou se transformando em uma memória curiosa e até engraçada.
A cena também poderia ser vista como uma síntese da vida de um músico independente: é preciso estar preparado para improvisar quando o roteiro muda.
No palco, a improvisação nasce da música. Fora dele, nasce da necessidade de continuar.

O período mais difícil para a banda foi a pandemia.
Shows, ensaios e encontros foram interrompidos. A música, que depende da presença e da troca, precisou conviver com a ausência do público.
“Tudo parou. Foi um período bem esquisito.”
A frase é breve, mas carrega o peso de um tempo em que os palcos ficaram vazios e os músicos precisaram lidar com a paralisação de seu trabalho.
Para Marcos, assim como para tantos artistas, não foi apenas uma interrupção profissional. Foi uma quebra na rotina, nos planos e na própria forma de se relacionar com o mundo.
Ainda assim, a música permaneceu.
Porque aquilo que nasce de uma relação tão profunda não desaparece quando os palcos se fecham.
Entre as apresentações mais marcantes da carreira está um show realizado durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro.
A banda imaginava que faria uma pequena apresentação no chão, para recepcionar o público. Mas, durante o trajeto até o local, percebeu que encontraria uma estrutura muito maior: um palco enorme, com telão e um sistema de som de grandes proporções.
Os músicos foram levados de carrinho até o espaço da apresentação e testemunharam a dimensão do palco crescendo diante deles.
“Quando fomos em direção àquele palco gigantesco, dissemos: ‘Uau, hoje o negócio vai ser diferente!’”
A energia do público tornou a noite inesquecível.
Foi um daqueles momentos em que o artista entende que seu trabalho pode alcançar dimensões que nem sempre consegue imaginar. A banda saiu de uma expectativa modesta para uma experiência grandiosa, carregando consigo a surpresa e a emoção de quem percebe que chegou mais longe do que esperava.
Durante oito anos, a Dida Bar, quando ainda funcionava na Praça da Bandeira, foi uma casa importante para o El Miraculoso Samba Jazz.
As apresentações semanais ajudaram no crescimento artístico do grupo, ampliaram sua visibilidade e fortaleceram a relação com o público. Mais do que um local de trabalho, a casa se tornou parte da memória da banda.
Agora, o El Miraculoso Samba Jazz retorna à Dida, atualmente localizada na Lapa, com apresentações aos sábados, junto ao movimento da Feira da Lavradio.
Voltar é também reencontrar uma parte da própria história. É reconhecer o lugar onde muitas coisas começaram a amadurecer e continuar a caminhada a partir dele.

Marcos vê o Rio como uma cidade com muitas oportunidades para os artistas. O jazz e a música instrumental vêm ocupando cada vez mais espaço na programação de casas e eventos.
Ao longo dos anos, ele acompanhou o surgimento de novas bandas e o fortalecimento de uma cena que se reinventa continuamente.
O El Miraculoso Samba Jazz participa desse movimento ao mostrar que a música instrumental pode estar próxima das pessoas: em um bar, em uma feira, em uma praça ou em qualquer espaço onde exista alguém disposto a ouvir.
Para os jovens que desejam seguir carreira na música, Marcos deixa um conselho direto: estudar.
Estudar com metrônomo, conhecer diferentes influências, pesquisar biografias e compreender a história e o contexto social, político e econômico dos artistas admirados.
Mas ele também fala sobre a importância de consumir cultura.
Ir a exposições. Assistir ao teatro. Ler. Ouvir outras músicas. Observar as pessoas e o mundo.
Tudo aquilo que alimenta a sensibilidade de um artista pode retornar em sua obra. Uma experiência pode virar melodia. Uma lembrança pode virar ritmo. Uma conversa pode alterar a forma de interpretar uma música.
O músico não se forma apenas pelo instrumento. Forma-se também pela vida.
Se a trajetória do El Miraculoso Samba Jazz fosse transformada em uma canção, Marcos escolheria “Que Beleza”, de Tim Maia, que faz parte do repertório da banda.
A escolha é significativa porque não ignora as dificuldades. Pelo contrário: reconhece a luta, mas decide não ser definido por ela.
“Foram momentos difíceis, muita luta, carregando equipamento, saindo correndo de um lugar para o outro. Mas fazemos tudo com muita alegria e muito amor. Que beleza!”
Essa frase revela a essência de sua caminhada.
Marcos sabe que houve cansaço, incerteza e momentos difíceis. Mas também sabe que continuar tocando é uma forma de celebrar a vida.
Marcos acredita que, no futuro, o nome do El Miraculoso Samba Jazz estará presente em pesquisas e dissertações sobre a música instrumental produzida no Rio de Janeiro.
Esse desejo representa mais do que a busca por reconhecimento. Representa a vontade de deixar uma marca na paisagem cultural da cidade.
E essa marca já está sendo construída.
Está nas composições autorais, nos alunos, nos palcos, na Dida Bar, na Praia Vermelha, nos ouvintes que voltam e nas pessoas que ainda vão descobrir a banda.
Está também naquele primeiro violão.
O instrumento que a mãe colocou nas mãos de Marcos ainda ecoa, de alguma forma, em tudo o que ele faz. Está na delicadeza do ensino, na disciplina do estudo, na coragem de escolher a música e na liberdade que aparece a cada improviso.
Marcos Luz não apenas toca no Rio de Janeiro.
Ele escuta o Rio, absorve seus ritmos e devolve à cidade uma música feita de encontros, memória e resistência.
Quem ouvir o El Miraculoso Samba Jazz talvez reconheça algo familiar: o movimento de uma rua, a energia de uma noite, a surpresa de uma chuva, o calor de uma casa cheia ou a emoção de uma história que ainda está sendo escrita.

Porque há músicos que simplesmente executam canções.
E há músicos que carregam dentro delas tudo o que viveram.
Marcos Luz é um desses músicos.
Contato Instagram: @marcosluzmarcosluz
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