
Antes de cruzar fronteiras, Patricia François já sonhava em abraçar o mundo. Menina do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, encontrou no Rio de Janeiro as primeiras oportunidades e os bastidores que dariam forma à sua carreira. Anos depois, levaria essa experiência para novos países — sem deixar para trás o lugar onde tudo começou.
Hoje, Patricia mantém sua empresa no Brasil, desenvolve projetos nos Estados Unidos e participa de iniciativas ligadas a eventos, cinema e artes marciais. Sua trajetória é feita de movimento: começa no universo dos grandes eventos cariocas, passa pela criação da própria empresa e ganha novos capítulos depois de uma mudança de país.
“Sou, antes de tudo, uma menina que sempre foi cheia de sonhos. Uma menina que saiu do Morro dos Prazeres querendo abraçar o mundo e, de alguma forma, fazer dele um lugar melhor, afirma.”
A carreira de Patricia começou cedo. Aos 15 anos, ingressou na Riotur por meio de um programa semelhante ao atual Jovem Aprendiz. Na área de eventos, teve contato com o Carnaval, grandes shows e diferentes estruturas de produção. Foi ali que percebeu que aquele universo poderia ser mais do que uma descoberta: poderia ser seu caminho.
“Ali tive minha primeira grande escola profissional. Tive contato com o Carnaval, com grandes shows e com uma estrutura de eventos que me mostrou, ainda muito jovem, que era aquilo que eu queria fazer.”
Aos 20 anos, começou a trabalhar como promoter no Maxim’s, então um dos clubes mais sofisticados e movimentados do Rio. Durante dez anos, acompanhou lançamentos, festas, desfiles e eventos que reuniam artistas, empresários e nomes da televisão, da música e da moda, além de visitantes internacionais.
Por trás do brilho das noites, Patricia aprendeu a observar o que fazia uma experiência funcionar: a forma de receber, a atenção aos detalhes, a leitura do público e a construção de relações. Não bastava fazer o evento acontecer. Era preciso entender quem estava ali — e como cada pessoa se sentiria.
Em 2002, dois anos antes do encerramento das atividades do Maxim’s, Patricia fundou a agência WTF ao lado de Wagner Violante e Felipe Clemente. Responsável pela atuação no Rio de Janeiro, levou para o novo negócio a experiência e os relacionamentos construídos no mercado, aproximando marcas e artistas.
Pouco depois, criou a François Promoções e Eventos, empresa que se consolidou sob seu comando e passou a produzir diferentes projetos. A menina que conhecera os bastidores dos eventos começava a construir os próprios caminhos — primeiro no Rio, depois em outros mercados.
“Cada etapa — desde aquela adolescente que entrou na Riotur até a empresária que atua entre diferentes países — foi formando a profissional que sou hoje”, diz.
Ao olhar para essa caminhada, Patricia destaca uma qualidade que permaneceu mesmo nos momentos difíceis: a capacidade de continuar imaginando o que ainda poderia ser feito.
“Talvez a maior característica que eu tenha levado de todas essas experiências seja uma só: nunca perder a capacidade de sonhar grande.”
A mudança para os Estados Unidos não nasceu de um plano de expansão profissional. Veio depois de uma sequência de episódios de violência que levou a família a repensar a segurança e o futuro. O marido e o filho de Patricia foram vítimas de um assalto à mão armada; naquele mesmo período, a família passou por outros dois arrastões.
“Como mãe, aquela cena ficou marcada em mim. Foram três situações em um único mês, e aquilo mudou completamente nossa percepção de segurança e de futuro”, conta.
A mudança trouxe um recomeço — e novos caminhos. O marido, faixa-preta de Jiu-Jitsu, abriu uma academia de artes marciais. Patricia também começou a treinar: hoje é faixa-roxa e segue em direção à faixa-preta.
A distância não rompeu seu vínculo com o Brasil. Ela continua à frente da empresa François Eventos e viaja ao país duas vezes por ano para acompanhar clientes, projetos e compromissos profissionais. Ao mesmo tempo, passou a desenvolver novas frentes nos Estados Unidos: participou de projetos ligados a festivais de cinema em Miami e Los Angeles, tornou-se produtora da Casa Cine Brasil, desenvolveu iniciativas em Nova York e no México e começou a organizar campeonatos locais de Jiu-Jitsu em Reno.


“Eu não abandonei o Brasil. Simplesmente passei a construir pontes entre os lugares onde a vida me levou.”
“Eu não abandonei o Brasil. Simplesmente passei a construir pontes entre os lugares onde a vida me levou.”
Adaptar-se a outro país exigiu aprender uma nova língua, compreender outros costumes e conhecer diferentes formas de fazer negócios. Patricia precisou se abrir para o novo sem perder de vista os valores que já trazia consigo.
“Você pode aprender uma nova língua, entender uma nova cultura e mudar a maneira de fazer algumas coisas. Mas não precisa mudar os seus valores para conquistar espaço.”
A receptividade que encontrou nos Estados Unidos ajudou a família a criar vínculos e a construir um sentimento de pertencimento. Ainda assim, sua história não é a de alguém que deixou a origem para trás. É a de quem ampliou os próprios horizontes levando as raízes junto.
A experiência nos dois países também mudou o olhar de Patricia sobre o mercado de eventos. Na sua avaliação, o Brasil se destaca pela criatividade, pela energia, pela hospitalidade e pela capacidade de encontrar soluções diante dos imprevistos. Nos Estados Unidos, ela percebe maior ênfase no planejamento, nos processos, nos cronogramas, no treinamento das equipes, na segurança e na padronização.
“São dois mercados muito fortes, mas com culturas e formas de trabalhar bastante diferentes”, explica.
Para ela, o melhor resultado aparece quando essas qualidades se encontram: a inventividade brasileira combinada à organização e ao planejamento americanos.
“O melhor está justamente em unir a criatividade e a capacidade de adaptação brasileira com a organização, o planejamento e os processos americanos.”
Essa combinação pode tornar os eventos mais eficientes e seguros sem perder aquilo que, para Patricia, dá sentido à produção: fazer o público se sentir acolhido e parte da experiência.
Organizar um evento é fazer com que tudo aconteça. Criar uma experiência, na visão de Patricia, é pensar também no que permanece quando a programação termina.
Esse cuidado começa na forma de receber cada convidado, passa pela comunicação da equipe e aparece nos detalhes. Uma grande estrutura pode impressionar; mas, para ela, são as pessoas que definem a memória de um evento.
“Um evento pode ter uma produção maravilhosa, uma grande estrutura e um orçamento enorme. Mas, se não existir cuidado com as pessoas, pode ser apenas mais um evento.”
O sucesso, nesse sentido, não está apenas no que o público vê durante a festa. Está também na lembrança que leva consigo: uma sensação, um encontro, uma história para contar.
Construir uma carreira como mulher e empreendedora exigiu coragem para se posicionar, defender ideias e demonstrar, por meio do trabalho, que competência não depende de gênero. Ao longo do caminho, Patricia também transformou sua maneira de liderar.
Aprendeu a ouvir mais, considerar opiniões diferentes e valorizar as pessoas que participam de cada projeto. Liderar, para ela, não significa ter todas as respostas, mas criar condições para que o trabalho seja construído em conjunto.
“Liderar, para mim, passou a ser muito mais sobre construir junto do que simplesmente dar direção.”
A convivência com diferentes culturas e equipes ampliou sua perspectiva profissional e pessoal. Cada lugar, pessoa e desafio acrescentou uma nova camada à mulher e à empresária que se tornou.
A tecnologia já faz parte de diferentes etapas da produção de eventos, do planejamento à comunicação com o público. Patricia acredita que a inteligência artificial poderá acelerar essa transformação, apoiando a criação de ideias, a organização e a personalização das experiências.
Mas há algo que, em sua visão, não pode ser automatizado: a sensibilidade para perceber as pessoas.
“Eventos são feitos para pessoas. A tecnologia pode ajudar a entender o público e tornar a operação mais eficiente, mas é a sensibilidade humana que percebe quando alguém precisa de atenção.”
O futuro do setor, acredita, está no encontro entre inovação e cuidado: “Tecnologia para tornar a operação mais inteligente e pessoas preparadas para tornar a experiência mais humana.”
Viver e trabalhar em outros países fez Patricia olhar para o Rio de Janeiro com ainda mais clareza. A cidade reúne paisagens, cultura, música, gastronomia, diversidade e uma maneira própria de receber — uma combinação que, para ela, é difícil de reproduzir em qualquer outro lugar.
“O Rio reúne coisas muito difíceis de reproduzir em outro lugar: paisagens, cultura, música, gastronomia, hospitalidade, diversidade e uma energia muito própria.”
Na avaliação da produtora, a cidade pode ampliar sua presença internacional ao unir essa identidade a planejamento, profissionalização, segurança e estrutura. Não precisa deixar de ser Rio para conquistar novos espaços: precisa mostrar ao mundo aquilo que já tem de único.
“O Rio não precisa deixar de ser Rio para conquistar o mundo. Precisa mostrar ao mundo tudo aquilo que já tem de único.”
“O Rio não precisa deixar de ser Rio para conquistar o mundo. Precisa mostrar ao mundo tudo aquilo que já tem de único.”
Da cidade, Patricia levou a criatividade, a alegria, a capacidade de improvisar, a paixão pelo trabalho, o jeito de receber e a coragem de correr atrás dos sonhos. Levou também a memória do lugar onde tudo começou.
“Eu saí do Morro dos Prazeres querendo abraçar o mundo e nunca esqueci isso.”
Dos Estados Unidos, trouxe uma visão mais voltada ao planejamento, à organização, aos processos e à disciplina. Hoje, reconhece em si a convivência entre essas duas experiências:
“Hoje sinto que tenho um pouco dos dois mundos dentro de mim: a alma carioca e uma visão internacional.”
Rio de Janeiro em uma palavra:
Casa.
Estados Unidos em uma palavra:
Oportunidade.
Criatividade ou planejamento?
Criatividade.
Um lugar do Rio de que sente falta:
Praia.
O que levou do Rio para o mundo?
A criatividade, a alegria, a hospitalidade e a coragem de correr atrás dos sonhos.
O que trouxe dos Estados Unidos?
Uma visão mais forte sobre planejamento, organização, processos e disciplina.
Um sonho que ainda quer realizar:
Concluir a produção do filme inspirado em sua história no Morro dos Prazeres e conquistar a faixa-preta no Jiu-Jitsu e no Muay Thai.
Entre os próximos objetivos estão ampliar a atuação da François, desenvolver novos projetos internacionais e fortalecer as conexões entre Brasil, Estados Unidos e outros mercados. Patricia também deseja aumentar sua participação em iniciativas sociais.
Para ela, legado não se mede apenas pelas empresas construídas, pelos eventos realizados ou pelos lugares alcançados. Está também nas oportunidades abertas e nas pessoas impactadas ao longo do caminho.
“Quando a gente olha para a própria trajetória, percebe que o verdadeiro legado não está apenas nas empresas, nos eventos ou nos lugares a que conseguimos chegar. Está também nas pessoas que conseguimos ajudar pelo caminho.”
A menina do Morro dos Prazeres continua sonhando grande. Agora, seus sonhos atravessam fronteiras — mas a origem segue presente em cada novo capítulo.
“Quero continuar construindo. Acho que esse sempre foi o meu maior projeto.”










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