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Inadimplência recorde põe seguro de crédito em foco
Com 9,1 milhões de CNPJs negativados e recuperações judiciais em nível histórico, a proteção dos recebíveis ganha peso na gestão financeira. Guilherme Silveira, CEO da Genebra Corretora de Seguros, analisa como a modalidade ajuda empresas que vend...
23/10/2026 15h00
Por: Redação Fonte: Agência Dino

O número de empresas inadimplentes no Brasil chegou a 9,1 milhões em junho de 2026, o maior patamar da série histórica, segundo o indicador da Serasa Experian. As dívidas negativadas dessas companhias somaram R$ 232,9 bilhões, com média de R$ 25,5 mil por CNPJ, em um ambiente no qual o atraso de um único cliente pode comprometer o caixa de quem vende a prazo, tanto no mercado interno quanto nas exportações.

O quadro aparece também nos tribunais. Outro levantamento do órgão mostra que 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em pedidos de recuperação judicial em 2025, alta de 13% sobre o ano anterior e o maior número já registrado. Agropecuária (30,1%) e serviços (30%) concentraram a maior parte dos casos, seguidos por comércio (21,7%) e indústria (18,2%).

O avanço ocorre mesmo com o início do afrouxamento monetário. Em 16 de setembro de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a Selic para 13,75% ao ano, no quinto corte consecutivo desde abril. Ainda assim, a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, observa que as condições financeiras permanecem restritivas, o que ajuda a explicar a continuidade da alta dos calotes corporativos.

O recebível como ponto de vulnerabilidade

Para Guilherme Silveira, CEO da Genebra Corretora de Seguros, empresa especializada em soluções de seguros para o mercado corporativo, os números expõem um risco que muitas vezes fica fora do radar da gestão. "A inadimplência é um dos riscos financeiros mais relevantes para empresas que vendem a prazo, porque uma venda só se transforma efetivamente em receita quando o recebimento acontece. Quando um cliente atrasa ou deixa de pagar, o impacto não fica restrito àquela operação: ele pode afetar o fluxo de caixa, a capacidade de investimento e até a própria rentabilidade da empresa", afirma.

Nas vendas ao exterior, a equação ganha novas variáveis. A modalidade voltada ao exportador é disciplinada no país pela Lei nº 6.704, de 26 de outubro de 1979, e pode abranger riscos comerciais, políticos e extraordinários. "Esse risco se torna ainda mais complexo nas operações de exportação, porque, além do risco comercial do comprador, existem fatores políticos e extraordinários que precisam ser considerados. Por isso, vemos o seguro de crédito como uma ferramenta de gestão financeira, e não simplesmente como uma proteção contra um eventual calote", avalia o executivo.

Como a proteção funciona no dia a dia

O seguro de crédito indeniza o fornecedor quando um comprador deixa de honrar pagamentos de vendas a prazo, dentro das condições previstas na apólice. Segundo Silveira, a mudança principal está na forma como a companhia administra o risco dos seus recebíveis. "Na contratação, é estabelecida uma estrutura de proteção para os clientes e respectivos limites de crédito. A empresa passa a contar com monitoramento da carteira e, caso ocorra uma situação coberta pela apólice, existe uma indenização prevista para o prejuízo decorrente da inadimplência", detalha.

"Isso traz previsibilidade para o fluxo de caixa. Em vez de a empresa precisar assumir integralmente uma perda inesperada, parte desse risco passa a ser transferida para a seguradora", acrescenta. O CEO da Genebra Corretora de Seguros lembra ainda que a seguradora pode participar da análise e do acompanhamento do risco de crédito, o que reduz parte do esforço interno dedicado a essa atividade.

Entre os critérios que costumam pesar na decisão de contratar, ele cita o grau de exposição às vendas a prazo, o perfil da carteira de clientes, o volume de vendas financiadas, o histórico de inadimplência, o setor de atuação e o prazo médio das operações. Um exemplo típico é o da empresa que sofre a insolvência de um de seus principais compradores. "O objetivo é justamente evitar que a inadimplência de um cliente se transforme em um problema financeiro desproporcional para o fornecedor", explica.

Dados e tecnologia na decisão de crédito

O volume de informações disponíveis sobre clientes também impõe desafios às áreas financeiras. "Um dos principais desafios é conseguir transformar uma grande quantidade de informações sobre clientes e recebíveis em decisões rápidas de crédito. A empresa precisa equilibrar duas coisas: vender e, ao mesmo tempo, não assumir um risco excessivo", pontua Silveira.

De acordo com o executivo, o setor de seguros vem respondendo com mais tecnologia, dados e automação, apoiado por insurtechs que utilizam APIs, ciência de dados e inteligência artificial em processos de subscrição, análise e distribuição. "No caso do seguro de crédito, isso significa tornar mais ágil a análise da carteira, a definição dos limites e o acompanhamento dos riscos, sem perder a qualidade técnica necessária para uma boa decisão", complementa.

Com a inadimplência empresarial em nível recorde e os juros ainda elevados, apesar dos cortes recentes, a gestão dos recebíveis tende a ocupar espaço maior na estratégia das empresas que financiam seus próprios clientes.

"Quando uma empresa vende a prazo, ela está financiando o seu cliente. Portanto, está assumindo uma posição de risco de crédito. O seguro permite que esse risco seja analisado, monitorado e, dentro das condições contratadas, transferido parcialmente para uma seguradora", resume o CEO. "No fim, proteger o recebível é proteger o próprio crescimento da empresa", conclui.

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